Śrī Rāmagītā e o estudo dos Vedas


Swami Paramarthananda, Rishikesh 2019

Se quisermos definir o estudo de Vedanta em três palavras, o mahavakyam:

“Tat tvam asi” – “Tu és isso - o ilimitado, Brahman!”

Mas esta grande afirmação acerca da nossa própria natureza pouco nos basta sem uma boa explicação e sem a devida preparação para acolher a resposta. Somente através do estudo coerente e com um professor digno e apto, poderemos vislumbrar esse conhecimento e isso é jñana yoga (o yoga do conhecimento).


Não há qualquer ação - meditação, prática ou ritual - neste mundo que nos traga esse entendimento. Assim os sastras nos falam, como um manual de instruções da humanidade, que o conhecimento dessa verdade, só vem através de uma abordagem intelectual que anule o erro cognitivo e de concepção da nossa própria natureza.


O Karma yoga é então, uma preparação necessária, que nos guia através do dharma (ética) para que possamos ganhar maturidade na nossa relação com o mundo relativo, que está na fonte das nossas maiores alegrias e sofrimentos. O Hatha Yoga é a disciplina que nos ajuda no autoconhecimento, proporcionando-nos diariamente o espaço de reflexão necessário e o dharma para com o nosso corpo/mente. Ele ajudar-nos-á a recordar que a nossa verdadeira natureza é efetivamente plena e que qualquer aflição é apenas adicional e produto da nossa própria ignorância.


Aqui fica um excerto de notas do professor Pedro Kupfer, um apontamento sobre o nosso estudo ao longo destes dias:


‘Gītā significa canção. Rāmagītā é a “Canção de Rāma”. Rāma é um avatāra, a sétima das dez encarnações do deus Viṣhṇu, que se manifesta na terra quando o dharma, a Lei Universal, está em perigo. O propósito das manifestações desse deus é educar a Humanidade e lembrar daquilo que foi esquecido para restaurar a harmonia e a justiça, na sociedade e no mundo. Este texto é um diálogo entre Rāma e seu irmão Lakṣmaṇa, que aparece no quinto capítulo do Uttarakhanda, que é parte integrante do Adhyātma Rāmāyāṇa que, por sua vez compõe a Brahmāṇḍa Purāṇa. (...) Lakṣmaṇa, irmão mais novo e fiel companheiro de Rāma, pergunta-lhe como atravessar o oceano da ignorância e deixar o sofrimento para trás. A instrução de Rāma ao seu jovem irmão é esta Rāmagītā.


Este ensinamento, que mostra que o indivíduo (jīvātma) é idêntico ao Ilimitado (Brahman), deve ser compreendido se quisermos uma vida tranquila, apesar as dificuldades inerentes a qualquer existência humana. A não-dualidade é um facto, apesar da aparente distinção sujeito-objeto, já que essa distinção não contradiz a não-dualidade. Este é o conhecimento do Veda. Está ao longo dos mantras do Ṛg Veda e, especialmente, no fim dele, condensado nas Upaniṣads.


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Na tradição espiritual da Índia, sempre que houver ensinamento sobre autoconhecimento, ele será transmitido na forma de um diálogo, como é este caso. Nunca encontraremos, nessa vasta literatura sagrada, um texto em que se ensine algo sobre espiritualidade de forma narrativa. O conhecimento que liberta da ignorância sempre aparece em forma de diálogos, entre dois irmãos, como é o caso da Rāmagītā, ou entre professor e estudante, marido e mulher ou pai e filho, como em algumas Upaniṣads e outros śastras.”

Hariḥ Oṁ!

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